Iniciamos mais um ano no Cursinho Popular Preparando o Futuro, 19º ano do projeto. Neste período de inscrições, vemos olhos brilhantes diante das oportunidades que a educação proporciona, especialmente como caminho de rompimento de ciclos intergeracionais de desigualdade social.
Recentemente, li o título de uma matéria que começava com “Uma publicitária…”. Isso despertou uma reflexão que frequentemente me acompanha: como nossa profissão acaba se tornando, muitas vezes, nossa principal identidade na sociedade. Estudar em uma escola técnica pode representar o início da construção dessa identidade.
Surge então um paradoxo em nossa missão. Buscamos desenvolver o protagonismo dos(as) adolescentes atendidos(as), e também estimular uma visão analítica e crítica sobre valores amplamente consolidados na sociedade. Valores que exaltam títulos, origens, bens possuídos ou aparentados, em detrimento de atributos mais virtuosos e menos mensuráveis. Há o risco de reforçarmos esses referenciais superficiais que sustentam um pacto social permissivo e que retroalimenta desigualdades, quase como o sonho do oprimido de ocupar o lugar do opressor.
Uma responsabilidade que nos cabe não é apenas “burlar” um sistema estruturalmente desigual, possibilitando acessos educacionais e profissionais antes improváveis. Nosso compromisso também é semear algo que transcenda a mobilidade social.
Em tempos de virtualização das relações, da vida e do consumo, nossa missão como PiPA permanece ancorada no relacionamento sincero, afetuoso e fraterno.
Talvez o primeiro passo desse “algo transcendente” esteja justamente naquilo que percebemos diariamente em todos os projetos do PiPA: o relacionamento, primeiro valor de nossa lista e, mais uma vez, fundamento de nossa prática.
Essa proposta relacional horizontal preserva o vínculo do(a) estudante aprovado(a) na escola técnica, na universidade pública, no estágio bem remunerado ou no emprego digno com suas próprias origens. Como sempre reforçamos: nunca se envergonhem de onde vieram e jamais se esqueçam de quem caminhou com vocês.
Esse é o verdadeiro impacto, maior até que as aprovações e a aparente frieza dos números. Ele se revela no calor da proximidade e no compartilhamento de conquistas que deixam de ser apenas individuais e passam a ser coletivas. Conquistas que reverberam em toda a estrutura social, alcançando aprovados, não aprovados, famílias, comunidade e sociedade.
Essa força relacional não se estabelece como mais um fator de divisão, nós e eles, mas como potência de unificação capaz de promover mudanças profundas e duradouras nas realidades, nas mentalidades e no pacto social. Preparando assim um futuro, juntos, não apenas possível e necessário, mas, quem sabe, inevitável.
